terça-feira, 18 de julho de 2017




APRENDI A LER?




Aprendi a ler.
Aprendi a ler?
A história não era a minha,
a história não era a nossa.
Os cartazes mostravam uma loirinha
que tinha avó e automóvel.
Eu não tinha avó,
que dirá automóvel...
Minhas meias eram pretas
e não estavam furadas.
Meu doce preferido não era o de abacaxi.





Aprendi a ler.
Decifrava facilmente letras e palavras.
Confesso que me encantei com a Lili.
Ela falava diretamente comigo.
Pensava: - por que eu sou tão diferente dela?


Aprendi a ler.
Na minha classe, carteiras separadas
com as crianças mais lentas ao aprender.
Eu não gostava daquilo. Perguntava-me:
- por que isso? - pra que isso?
Eu já lia alguma coisa
e não sabia o quê.














Aprendi a ler? – Aprendi a sonhar.
Os romances falavam de outra realidade.
Um pratinho de doce, um copo d’água,
 um livro e a viagem começava.
Estava seduzida irremediavelmente.
No silêncio, ruminava meu encantamento,
assombrada com o que morava nos livros.


Aprendi a ler.
O professor continuava a aula após o sino.
Perguntei: - por quê?
Fui suspensa três dias das aulas.
A injustiça saltou-me aos olhos
 e rolou em cachoeira.


Aprendi a ler?
Li novos autores, outros pontos-de-vista.
Vi a polícia agindo na FAFICH.
Conheci moças ricas e elegantes na PUC,
iam de carro pra faculdade.
Eu pegava oito ônibus por dia. Por quê?



Comecei a soletrar-me
e a soletrar o mundo.
Ensimesmada, decodificava palavras
 e desenovelava textos e sentidos.
As possibilidades...
A impossibilidade.
Descobri a senha para atravessar o rio.



Na leitura, ainda sou aprendiz,
empaquei na etimologia da palavra homem.
A porta aberta à compaixão, no casarão da Glória,
ensinou-me mais que os clássicos.
As relações de trabalho e as afetivas
confirmaram-me que a leitura
se faz da esquerda pra direita
e que meu coração sempre
 bateu à esquerda do peito.


O meu ponto-de-vista,
 apenas a vista de um ponto,
leitura diária na minha agenda.
Aprendi a ler?




















Celina Rabello – BH 10/07/17