quarta-feira, 19 de dezembro de 2018






O RELÓGIO




Relógios repetem
o mesmo compasso há séculos.
Mas a cadência de agora
não é a que eu ouvia
quando a nossa  rua tinha murteiras
e os domingos não eram dias
 de se arear panelas.


A ciranda do relógio,
 com seu pêndulo em lira,
na sala de visitas,
era de doce ansiedade
misturada à imagem do presépio,
onde a fé, a ternura e a natureza
haviam construído uma gruta para o Amor.


No coração só estavam desenhados
o convívio da família, da escola,
os folguedos na rua,
os passeios na fazenda –
músicas registradas na memória.




Hoje, a pauta das horas
 eterniza a circunferência
de um tempo repartido
em tédio, esperanças amarelecidas
e algum fruto da alegria.


A disritmia do relógio
não garante o sonho da madrugada.
Mas o iridescente galo do Natal
da aurora abre as asas, e  anuncia
que o Menino faz, das cinzas,
renascer a fênix.






Celina Rabello – BH - 19/12/2018